Inexistiam leis que protegessem as tartarugas nessa época, consideradas recurso alimentar como todos os animais marinhos, e em cardápio de restaurante do Rio de Janeiro havia prato do dia com "sôpa fresca de tartaruga de 300 anos". Muitos dos temas abordados por Rubem Braga surgiram de sua parceria e amizade, por mais de 27 anos, com o naturalista brasileiro, e também capixaba, Augusto Ruschi, um dos pioneiros na conservação do Brasil. O jornalista produziu outras crônicas sobre uma variedade de temas relacionados à natureza, como o desmatamento, a extinção de algumas espécies e a seca dos rios, em épocas em que legislação e consciência pública sobre problemas ambientais existiam em níveis bem inferiores aos atuais.Barata conta também um pouco do nascimento do Projeto Tamar em 1980 e início das ações de proteção às tartarugas marinhas no Brasil, quando informações sobre a captura desses animais ainda constavam nas bases governamentais de dados e estatísticas sobre a pesca no país. O autor lembra que a proteção de todas as espécies de tartarugas marinhas no Brasil, incluindo os seus ovos, entrou em vigor em 1986, após uma série de normas criadas entre 1976 e 1984, protegendo-as parcialmente.
O Tamar desenvolveu-se em uma grande rede de bases de conservação e pesquisa, explica Barata, distribuídas ao longo da costa brasileira, conectando-se a muitas universidades e organizações para fazer pesquisa e trabalhar na conservação das tartarugas marinhas. "Como resultado dessas ações, o Brasil está agora integrado no movimento mundial para a conservação das tartarugas marinhas".
O autor nota que, a longo prazo, o alicerce para o contínuo compromisso da sociedade em preservar as tartarugas marinhas seja possivelmente a realização de um elevado grau de conscientização do público sobre o valor de protegê-las e seus habitats. Segundo Barata, a crônica "A Tartaruga" foi a contribuição mais antiga e tocante de Rubem Braga para a formação de uma consciência coletiva de cuidado com esses animais até hoje ameaçados de extinção.
Leia a crônica de Rubem Braga:
A Tartaruga
Moradores de Copacabana, comprai vossos peixes na Peixaria Bolívar, Rua Bolívar, 70, de propriedade do Sr. Francisco Mandarino. Porque eis que ele é um homem de bem.
O caso foi que lhe mandaram uma tartaruga de cerca de cento e cinqüenta quilos, dois metros e (dizem) duzentos anos, a qual ele expôs em sua peixaria durante três dias e não quis vender; e levou até a praia, e a soltou no mar.
Havia um poeta dormindo dentro do comerciante, e ele reverenciou a vida e a liberdade na imagem de uma tartaruga.
Nunca mateis a tartaruga.
Uma vez, na casa de meu pai, nós matamos uma tartaruga. Era uma grande, velha tartaruga-do-mar que um compadre pescador nos mandara para Cachoeiro.
Juntam-se homens para matar uma tartaruga, e ela resiste horas. Cortam-lhe a cabeça, ela continua a bater as nadadeiras. Arrancam-lhe o coração, ele continua a pulsar. A vida entranhada nos seus tecidos com uma teimosia que inspira respeito e medo. Um pedaço de carne cortado, jogado ao chão, treme sozinho, de súbito. Sua agonia é horrível e insistente como um pesadelo.
De repente os homens param e se entreolham, com o vago sentimento de estar cometendo um crime.
Moradores de Copacabana, comprai vossos peixes na Peixaria Bolívar, de Francisco Mandarino, porque nele, em um momento belo de sua vida vulgar, o poeta venceu o comerciante. Porque ele não matou a tartaruga.
Rubem Braga, Rio de Janeiro, julho de 1959.
Fonte: Projeto Tamar
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